“Passaporte verde” pressiona exportações do agro brasileiro e exige rastreabilidade da fazenda ao porto

Endurecimento das regras ambientais na Europa e em outros mercados acelera a corrida por certificações e sistemas de monitoramento de desmatamento, com impacto direto sobre pequenos e grandes produtores.

Colheita | Foto: Vecteezy

O agronegócio brasileiro entra em 2026 sob pressão crescente de exigências ambientais internacionais. Com a implementação da regulamentação europeia contra o desmatamento e de regras semelhantes em outros mercados, ganha força o que exportadores têm chamado de “passaporte verde”: um conjunto de exigências de rastreabilidade e comprovação de origem sustentável para produtos como soja, carne, café e madeira.

A lógica é simples, mas impactante: para entrar em determinados mercados, o produtor não deverá apenas comprovar qualidade e sanidade do produto, será necessário demonstrar, com dados georreferenciados, que a área de produção não avançou sobre floresta nativa após uma data de corte definida em regulamentos ambientais, sob pena de bloqueio de exportações e sanções comerciais.

Reportagens recentes destacam que empresas brasileiras de grãos, frigoríficos e tradings já estão investindo na integração de bases de dados de Cadastro Ambiental Rural (CAR), imagens de satélite e sistemas privados de monitoramento para construir cadeias de fornecimento “livres de desmatamento”. A medida, porém, não é trivial: ela exige estrutura tecnológica, equipe especializada e, em muitos casos, reorganização de fornecedores para excluir áreas sob risco de irregularidade ambiental.

Para o produtor rural, o impacto é direto. Grandes grupos, com acesso a crédito internacional e mercados premium, tendem a se adaptar mais rapidamente, incorporando exigências ambientais como critério de competitividade. Já agricultores médios e pequenos podem enfrentar dificuldades para arcar com os custos de adequação, correndo o risco de perder acesso a determinados compradores se não contarem com apoio técnico, cooperativas fortes ou políticas públicas que facilitem a conformidade.

Especialistas em comércio exterior alertam que o debate não é apenas ambiental, mas também geopolítico e econômico. Países que importam alimentos do Brasil utilizam a agenda climática como filtro para investimentos e compras governamentais, ao mesmo tempo em que protegem suas próprias cadeias produtivas da concorrência de commodities mais baratas. Para o Brasil, a resposta passa por duas frentes: mostrar, com transparência, as áreas já preservadas e recuperar regiões degradadas, ao mesmo tempo em que combate práticas irregulares que alimentam a narrativa de “agro predatório”.

Na prática, o “passaporte verde” transforma compliance ambiental em requisito estratégico. Quem se adequar primeiro terá mais portas abertas para exportar; quem resistir às mudanças corre o risco de ficar para trás em um mercado global cada vez mais regulado, em que a reputação ambiental pesa quase tanto quanto o preço.

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