Sobre a (falsa) polêmica da retirada do mogno da Rua 20 em Goiânia

Na última semana, foi anunciado pela Seção Judiciária de Goiás que o exemplar de mogno brasileiro (Swietenia macrophylla King), plantado em 1958 por estudantes da então Faculdade de Direito do Estado de Goiás — será removido após laudos técnicos confirmarem risco significativo de queda.

A SJGO, deve-se reconhecer, foi bastante cautelosa e, diante do laudo encaminhado por professores da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás, convocou reunião técnica com a AMMA, IBAMA, UFG, COMURG, SECULT/GO, AGU e IPHAN para apresentação do laudo e definição das providências.

Também foram convidados o Ministério Público Federal (MPF) e a Associação de Egressos da UFG. Durante o encontro, ainda foi solicitada à Agência Municipal do Meio Ambiente uma avaliação complementar.

Mesmo com todas essas cautelas, no território sem lei das redes sociais foi possível ver acusações, desprovidas de comprovação, de que a retirada da árvore visaria desviar a madeira para fins ilícitos.

Apesar da compreensível e natural consternação causada pela notícia entre pessoas comuns da população, chama a atenção a reação de setores progressistas, alguns deles ligados à própria UFG, e que até há pouco tempo defendiam a soberania da ciência frente ao negacionismo.

Nas redes sociais, sobraram críticas até para a Prefeitura de Goiânia, embora a árvore esteja localizada em um imóvel federal, administrado pela Seção Judiciária de Goiás.

Pessoas desse mesmo grupo fingem ignorar que o laudo que recomenda a retirada do mogno é um documento feito com rigor científico, produzido por pesquisadores de uma universidade pública.

Em seu teor, as críticas feitas agora em nada diferem das informações falsas divulgadas por negacionistas durante a pandemia, que se colocavam contrários ao parecer da Anvisa que aprovou as vacinas.

O ataque ao trabalho científico é feito em nome de um populismo barato, sob a lógica do “não li e não gostei”. Invocam um verniz democrático, como se a legitimidade do parecer técnico adviesse da aprovação popular e não da metodologia científica.

A maior parte das críticas é desprovida de qualquer lastro técnico, recorrendo à memória histórica e afetiva, como se isso por si só fosse capaz de aplacar o impacto da queda de um pedaço de mogno sobre a cabeça de um transeunte na Rua 20.

Pergunta-se: na próxima pandemia, além do parecer da Anvisa também será necessário um plebiscito popular para aprovação da vacina?

É essa a perigosa consequência do discurso populista e negacionista que, sem nenhum fundamento científico, coloca em xeque o parecer de um órgão técnico.


José Anselmo Curado Fleury

Advogado e sócio do escritório Alves & Fleury Advocacia

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