“Nada resiste ao trabalho”: Rafael Lara fala sobre carreira, propósito e advocacia

 

Na estreia da capa do Ponto de Vista Jurídico, o entrevistado é o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO), Rafael Lara Martins. Em uma conversa marcada por sinceridade, memória e reflexão, ele revisita o início da própria trajetória, relembra os desafios enfrentados nos primeiros anos da advocacia e compartilha a visão que construiu sobre propósito, ética, liderança e perseverança.

Ao longo da entrevista, Rafael revela que o Direito não foi sua primeira escolha, fala sobre a decisão de deixar um concurso público para seguir no sistema de justiça, recorda o período de escassez no começo da advocacia e explica como a persistência e o compromisso com a profissão moldaram sua caminhada. Também deixa mensagens aos estudantes e jovens profissionais que sonham em construir uma carreira sólida e respeitada.


Entrevista

Antes de ocupar posições de destaque na advocacia, quem era o Rafael Lara no início da vida acadêmica e o que o levou a escolher o Direito?

Essa pergunta é interessante, porque dificilmente alguém imagina isso, mas o Direito nunca foi minha primeira escolha. Eu queria cursar Relações Internacionais e ser diplomata.

Em que momento o senhor percebeu que a advocacia seria mais do que uma profissão, mas um verdadeiro projeto de vida?

Quando fui me inscrever para o vestibular da UFG, perguntei à recepcionista qual era o curso mais concorrido, e ela me disse que era Direito matutino. Na hora, marquei essa opção, embora meu verdadeiro objetivo fosse passar na UnB para Relações Internacionais.

Acabei sendo aprovado em Direito e não em Relações Internacionais e, ao iniciar a faculdade, também fui aprovado em um concurso da Caixa Econômica Federal. À primeira vista, estava tudo perfeito. Mas, para mim, ainda faltava algo. Apesar de tudo estar perfeitamente encaminhado no sistema bancário, eu sentia que precisava de mais, era como se aquela função tivesse um certo limitador.

Mesmo sendo concursado, tomei uma decisão ousada e pedi demissão para me tornar estagiário do Ministério Público. Foi ali, acompanhando a rotina e entendendo mais sobre o sistema de justiça, que eu compreendi a grandeza do Direito e percebi como era um universo cheio de possibilidades.

Depois que saí do estágio, chamei um amigo da faculdade para montarmos um escritório. Foi quando abracei todos os casos que apareciam, independentemente da especialidade exigida no processo. Meu objetivo era resolver os problemas, e assim fui me apaixonando. Até que a área que ganhou meu coração foi a trabalhista, ali entendi que era minha vocação. A advocacia trabalhista me escolheu.

Que experiências da juventude ou da formação acadêmica mais influenciaram a construção da sua carreira jurídica?

Na minha participação na diretoria do Centro Acadêmico, mais conhecido como Caxim, pude entender a importância da liderança, da união e da coletividade na defesa de pautas de interesse comum e, claro, a importância da construção de relacionamentos.

O nosso mercado de trabalho já deve começar no banco da faculdade, sempre digo isso: tudo pode ser uma oportunidade, uma parceria. Enfim, esse movimento foi fundamental durante a minha formação acadêmica.

Quais foram os maiores desafios enfrentados no começo da carreira e como o senhor lidou com eles?

O maior desafio foi conseguir entrar nos escritórios sem experiência. Todas as vagas que surgiam, mesmo para advogado júnior, exigiam uma experiência que eu não tinha; afinal, eu tinha acabado de me formar e minha experiência era o estágio.

Distribuí inúmeros currículos e nunca me chamavam. Eu também não tinha carro, o que era um agravante. Foi então que percebi que aquilo não iria para frente e decidi chamar um amigo para montarmos o nosso próprio escritório, um amigo da faculdade mesmo, como já disse.

E assim fizemos: montamos o escritório com a cara e a coragem. Pegávamos tudo o que aparecia, de multa de trânsito a processos trabalhistas. Nós fazíamos o atendimento, a limpeza, o café e tudo mais que fosse necessário.

Houve algum momento de dificuldade, dúvida ou até vontade de mudar de caminho? O que o fez persistir?

Dificuldades? Nossa! Foram muitas. Posso dizer que minha advocacia só começou a andar depois de seis anos. Antes disso, foi um período de muita escassez e portas fechadas. Eu já estava preocupado, pensando: “O que foi que eu fiz?” Mas não parei; não tinha essa opção.

Era o que eu tinha, e eu precisava fazer a chave virar, e ela virou com persistência e resiliência. Nunca deixei de atender nem de estudar, e as coisas começaram a se encaminhar depois desses seis primeiros anos. Eu costumo dizer que nada resiste ao trabalho; sou a prova disso.

Existe algum caso, fase ou experiência profissional que o senhor considera um divisor de águas na sua trajetória?

Sim, quando fui apresentado ao sistema da OAB, não tinha ideia da dimensão da sua importância para a classe. Na verdade, a OAB é fundamental para a advocacia. Se hoje a profissão, assim como tantas outras, já enfrenta um cenário desafiador, sem a OAB seria ainda mais difícil.

É a nossa instituição que atua diariamente para garantir e fazer valer nossos direitos, defendendo nossas prerrogativas, o que, consequentemente, garante aos cidadãos o acesso e a efetivação da justiça. Desde a minha primeira atuação na OAB, como subcoordenador na Comissão da Advocacia Jovem, assumi um compromisso com essa causa. Fiz um compromisso com a advocacia de sempre buscar melhorias para a classe.

Para o senhor, o que realmente significa ter sucesso na carreira jurídica?

Não existe receita mágica para o sucesso. O que eu sei é que, sem propósito, ninguém prospera.

Se você tem um propósito, encare-o como uma missão. Dedique-se com tudo o que tem, por menor que seja. Coloque mais combustível e menos freio, e a resposta virá.

Quais valores o senhor considera inegociáveis para quem deseja construir uma trajetória sólida, respeitada e duradoura no Direito?

Eu costumo listar três pilares: estudo, ética e resiliência.

Seja sempre a pessoa da mesa que mais entende do assunto, tenha uma postura ilibada e não busque caminhos encurtados. Eles podem ser atrativos, mas cobram um preço muito alto. Faltar com a ética na advocacia é perder a própria essência. E mesmo diante de dificuldades, não desista; continue sempre.

O que a advocacia ensinou ao senhor sobre liderança, resiliência e relacionamento humano ao longo da carreira?

Que ninguém faz nada sozinho. Você pode estar em qualquer posição, mas, sozinho, não chega a lugar algum nem entrega nada.

Há uma citação de que gosto muito que diz: “Quem estará nas trincheiras ao teu lado?” “E isso importa?” “Mais do que a própria guerra.” Isso resume bem a importância da união e do compromisso na busca pelo que acreditamos.

Na sua avaliação, qual é o erro mais comum cometido por jovens advogados no início da profissão?

Um dos erros mais comuns é a ansiedade por resultados imediatos. A advocacia nos exige construção diária, estudo, paciência e amadurecimento técnico ao longo do tempo. Muitos jovens acabam negligenciando a importância do estudo contínuo, da ética e da dedicação diária. Sempre digo nas entregas de carteiras profissionais que há tempo para plantar, regar e colher. Quando um jovem advogado ou advogada pega a carteira começa um novo caminho e essa trajetória exige paciência e dedicação.

Quais hábitos, posturas ou escolhas mais ajudam um profissional do Direito a evoluir de forma consistente?

A evolução consistente passa sempre pelo compromisso com o aprendizado contínuo. Estudar, atualizar-se e acompanhar as transformações do Direito são indispensáveis. Além disso, postura ética, responsabilidade, boa comunicação e organização fazem toda a diferença. Construir boas relações profissionais, respeitar colegas e clientes e ter disciplina na rotina também são pilares indispensáveis para o crescimento na carreira.

Que mensagem o senhor deixaria para estudantes e jovens profissionais que sonham em alcançar destaque e realização na carreira jurídica?

A advocacia é uma profissão desafiadora, mas extremamente transformadora. Para aqueles que sonham em se destacar, minha mensagem é de perseverança e propósito. Mantenham-se firmes nos seus valores, não abram mão da ética e acreditem no trabalho sério. O reconhecimento é consequência de uma trajetória construída com dedicação, responsabilidade e compromisso com a justiça. Cada etapa da caminhada tem seu valor, e é justamente essa jornada que forma grandes profissionais.

Se pudesse voltar ao início, que conselho daria a si mesmo?

Difícil responder isso, porque acredito que as coisas aconteceram como precisavam acontecer. Por isso, não mudaria nada.

Diria apenas para aquele Rafael, criado no Bairro Popular de Goiânia, seguir acreditando em si mesmo e continuar no caminho que escolheu. A obstinação, ao longo da minha trajetória, sempre foi uma aliada importante.

Como o senhor gostaria de ser lembrado na história da advocacia goiana?

Ainda tenho muito trabalho a entregar, e meu compromisso segue firme. Tenho a convicção de que não devo ser lembrado como o melhor presidente, porque o melhor precisa ser sempre o próximo. É uma função que exige aprimoramento e inovação constantes, e a presidência da OAB não é uma corrida de 100 metros, mas uma maratona. Quando assumimos, precisamos dar o nosso máximo e passar o bastão melhor do que recebemos.

Quero honrar a missão que mais de 50 mil advogados e advogadas goianos confiaram a mim, e serão eles que dirão qual será o meu legado. Por ora, sigo trabalhando diariamente, com união e compromisso.


Perfil do entrevistado

Rafael Lara Martins é advogado, presidente reeleito da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO) para o triênio 2025-2027, doutor em Direitos Humanos pela Universidade Federal de Goiás (UFG), mestre em Direito das Relações Sociais e Trabalhistas pelo Centro Universitário do Distrito Federal (UDF) e bacharel em Direito pela UFG.

É membro da Academia Brasileira de Direito do Trabalho, ocupando a 16ª cadeira. No sistema OAB, atuou como Conselheiro Federal no triênio 2019-2021, Diretor-Geral da Escola Superior de Advocacia de Goiás em duas gestões consecutivas, de 2016 a 2018 e de 2019 a 2021, além de Conselheiro Seccional da OAB-GO nos triênios 2013-2015 e 2016-2018.

Também participou ativamente de diversas comissões, sendo o primeiro presidente da Comissão de Sociedades de Advogados da OAB-GO no triênio 2013-2015 e vice-presidente da Comissão Nacional de Compliance do Conselho Federal da OAB no período de 2019 a 2021.

Além de sua atuação na OAB, foi presidente do Instituto Goiano de Direito do Trabalho (IGT) em dois mandatos consecutivos, entre 2011-2013 e 2013-2015. Também se dedica à docência, atuando como professor de Direito, palestrante e autor.

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