CEI dos Fios Soltos aprova nova convocação do presidente da Equatorial após identificar contradições

Lener Jayme deverá retornar à Câmara para esclarecer divergências entre seu primeiro depoimento e informações apresentadas por familiares, empresas e órgãos públicos.

Reunião da CEI dos Fios Soltos na Câmara Municipal de Goiânia | Foto: Câmara Municipal de Goiânia

A Comissão Especial de Inquérito (CEI) dos Fios Soltos aprovou, nesta terça-feira (9), a convocação do presidente da Equatorial Goiás, Lener Silva Jayme, para prestar um novo depoimento na Câmara Municipal de Goiânia. A deliberação ocorreu durante a 16ª reunião ordinária do colegiado.

A reconvocação foi proposta após os vereadores identificarem contradições entre declarações apresentadas pelo dirigente em sua primeira oitiva e informações posteriormente fornecidas à comissão por representantes de empresas de telecomunicações, órgãos municipais, entidades do setor e pela família de Nathaly Rodrigues do Nascimento.

A adolescente de 17 anos morreu em setembro de 2025, depois de sofrer uma descarga elétrica ao entrar em contato com um cabo energizado na Rua 20, no Centro de Goiânia. O caso tornou-se um dos principais pontos investigados pela CEI.

A nova oitiva deverá permitir que Lener Jayme esclareça as divergências, apresente documentos e responda a novos questionamentos dos parlamentares. A data do depoimento ainda deverá ser definida pela comissão.

Assistência à família é um dos pontos questionados

Uma das principais contradições apontadas pelos vereadores está relacionada à assistência oferecida à família de Nathaly após a morte da adolescente.

Durante o primeiro depoimento do presidente da Equatorial, realizado em 31 de março, integrantes da comissão afirmaram ter recebido a informação de que a concessionária teria prestado suporte à família, incluindo auxílio relacionado ao velório, ao sepultamento e ao acompanhamento psicológico e jurídico.

Entretanto, ao ser ouvida pela CEI no dia 28 de abril, Daiane do Nascimento, mãe da adolescente, negou ter recebido qualquer tipo de apoio da empresa.

“Nem na época e nem depois. Nada!”, declarou Daiane durante a reunião.

Na ocasião, o presidente da comissão, vereador Coronel Urzêda (PL), classificou a divergência como grave. O relator, vereador Geverson Abel (Republicanos), também afirmou que a informação seria considerada na elaboração do relatório final da investigação.

Para a família, a morte da adolescente não pode ser tratada como uma simples fatalidade. Daiane afirmou aos vereadores que havia transcorrido um intervalo entre o rompimento do cabo e o momento em que Nathaly sofreu a descarga elétrica, o que, segundo ela, poderia ter possibilitado uma intervenção antes da tragédia.

Responsabilidade pela organização dos postes

Outro ponto que deverá ser retomado no novo depoimento é a responsabilidade pela fiscalização, organização e retirada dos cabos instalados nos postes de Goiânia.

Na primeira oitiva, Lener Jayme reconheceu que a Equatorial possui autonomia para retirar cabeamentos irregulares. O dirigente, contudo, explicou que a concessionária evita realizar remoções indiscriminadas porque muitos cabos, inclusive de empresas regulares, não estão devidamente identificados.

Segundo ele, a retirada poderia provocar a interrupção de serviços de internet, telefonia e comunicação utilizados por residências, empresas e instituições públicas.

A justificativa foi criticada pelos integrantes da CEI. Para os vereadores, a concessionária, como proprietária ou administradora da infraestrutura compartilhada, não pode limitar sua atuação ao envio de notificações quando as empresas responsáveis pelos cabos deixam de regularizar a situação.

Os depoimentos prestados posteriormente reforçaram os questionamentos. Representantes de operadoras de telecomunicações afirmaram que pagam à Equatorial pelo uso dos postes e defenderam que cabe à concessionária fiscalizar e organizar a ocupação da estrutura.

O gerente regional da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Paulo Aurélio Pereira da Silva, também informou à comissão que a fiscalização do uso dos postes pelas empresas de telecomunicações é atribuição da distribuidora de energia.

Em depoimento mais recente, o gerente de operações da TIM em Goiás, Gustavo Henrique Silva, sustentou que a Equatorial deve coordenar a organização da fiação. Segundo ele, as operadoras remuneram a concessionária justamente para utilizar os postes.

Empresas relatam procedimentos diferentes

Ao longo das oitivas, as empresas de telecomunicações apresentaram informações sobre seus próprios procedimentos de manutenção.

O representante da Claro afirmou que a companhia realiza inspeções completas na rede aérea duas vezes por ano e que as irregularidades comunicadas pela Equatorial são corrigidas, em regra, dentro de até 72 horas.

Já o representante da TIM informou que a operadora mantém equipes terceirizadas para serviços preventivos e corretivos. Segundo ele, casos considerados críticos recebem atendimento imediato, enquanto outras ocorrências podem ser solucionadas em até sete dias.

Apesar dessas declarações, os trabalhos da CEI apontam para um cenário de responsabilidades fragmentadas. Empresas de telecomunicações atribuem à Equatorial o dever de fiscalizar os postes, enquanto a concessionária sustenta que a ausência de identificação dos cabos dificulta a retirada segura do material.

Problema atinge milhares de postes

Dados apresentados à comissão pela Agência de Regulação de Goiânia dimensionam o problema. A capital teria cerca de 220 mil postes com algum tipo de fiação irregular.

Segundo o órgão municipal, aproximadamente 110 empresas utilizam a infraestrutura dos postes, mas apenas uma pequena parcela participava efetivamente das ações do Programa Cidade Segura no início deste ano.

A iniciativa reúne Prefeitura de Goiânia, Ministério Público de Goiás, Equatorial, operadoras de telecomunicações e entidades representativas do setor. Entre outubro e dezembro de 2025, o programa retirou mais de 21 toneladas de cabos soltos, abandonados ou sem utilização em vias da capital.

Mesmo com os resultados, vereadores apontam que as ações pontuais ainda não solucionam o passivo acumulado nem estabelecem, de maneira efetiva, quem será responsabilizado quando as irregularidades não forem corrigidas.

Investigação foi prorrogada

Criada em novembro de 2025, a CEI dos Fios Soltos é presidida pelo vereador Coronel Urzêda, tem Daniela da Gilka (PRTB) como vice-presidente e Geverson Abel como relator.

Em maio, o Plenário da Câmara aprovou a prorrogação dos trabalhos por mais 120 dias. O período adicional será utilizado para a realização de novas oitivas, análise dos documentos recebidos e elaboração do relatório final.

A nova convocação do presidente da Equatorial marca uma etapa importante da investigação. Com o retorno de Lener Jayme, os vereadores pretendem confrontar diretamente as versões apresentadas e delimitar as responsabilidades administrativas, civis ou eventualmente criminais relacionadas à manutenção dos postes, à fiscalização dos cabos e aos acidentes provocados pela fiação irregular em Goiânia.

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